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Quando a dívida vira ativo: a lógica financeira por trás dos créditos estressados

Diego Rodríguez VelázquezPor Diego Rodríguez Velázquezjunho 30, 2026Nenhum comentário5 Mins de leitura
Felipe Rassi
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Felipe Rassi, especialista no mercado financeiro, parte de uma premissa que contraria o senso comum: dívidas inadimplentes, quando bem analisadas, podem representar algumas das alocações mais eficientes dentro de um portfólio diversificado. O que para o credor original é um passivo de difícil resolução, para o investidor especializado é o ponto de entrada de uma operação estruturada com potencial de retorno expressivo.

A lógica não é nova, mas ganhou tração relevante no Brasil a partir da consolidação do marco regulatório de recuperação judicial e da crescente profissionalização das gestoras de ativos estressados. Em junho de 2026, o mercado de distressed assets movimenta volumes que seriam impensáveis há uma década, com participação crescente de fundos nacionais e internacionais que enxergam no ambiente de inadimplência elevada uma oportunidade estrutural, não conjuntural.

O deságio como ponto de partida da análise

A aquisição de créditos não performados ocorre, invariavelmente, abaixo do valor de face. O deságio praticado no mercado brasileiro tem variado entre 55% e 85%, dependendo do perfil do devedor, da natureza das garantias e do estágio do processo de cobrança. Em carteiras com garantias reais de qualidade, como imóveis em regiões valorizadas ou recebíveis com boa liquidez, o desconto tende a ser menor porque a perspectiva de recuperação é mais previsível.

Felipe Rassi elucida que a questão central para o investidor não é o tamanho do desconto em si, mas a relação entre o preço de aquisição e o valor presente líquido dos fluxos de recuperação projetados. Carteiras adquiridas com deságio de 75% podem ser excelentes negócios ou armadilhas financeiras, dependendo exclusivamente da qualidade da análise que precede a operação.

Por que os bancos vendem o que poderiam cobrar?

Uma das perguntas mais recorrentes entre investidores que se aproximam do mercado de NPL pela primeira vez é a seguinte: por que instituições financeiras optam por vender carteiras inadimplentes com desconto expressivo em vez de conduzir a recuperação internamente?

A resposta envolve múltiplas variáveis. Bancos e financeiras são obrigados a provisionar perdas sobre créditos em atraso, o que impacta diretamente seus índices de capital regulatório. Manter um volume elevado de NPL no balanço implica custo de capital, pressão sobre os índices de Basileia e menor capacidade de originar novos créditos. A cessão de carteiras, mesmo com desconto, libera capital, melhora os indicadores de qualidade de ativos e permite que a instituição concentre recursos em sua atividade principal.

Segundo Felipe Rassi, a compreensão dessa dinâmica institucional é fundamental para entender o fluxo de oferta no mercado de créditos estressados. Trata-se de uma decisão racional de gestão de balanço que cria, sistematicamente, oportunidades para compradores com capacidade técnica de precificar e recuperar esses ativos.

Estruturas de aquisição e seus impactos tributários e jurídicos

A forma como uma operação de aquisição de NPL é estruturada tem consequências diretas sobre sua rentabilidade líquida. No Brasil, as principais estruturas utilizadas envolvem fundos de investimento em direitos creditórios, cessão direta de crédito com e sem coobrigação, e veículos de propósito específico criados para concentrar ativos de um determinado perfil.

Felipe Rassi
Felipe Rassi

Cada estrutura carrega implicações tributárias, regulatórias e de governança que precisam ser mapeadas antes da aquisição. A escolha inadequada do veículo pode comprometer a eficiência fiscal da operação ou criar passivos contingentes não previstos na modelagem original. A due diligence jurídica, nesse contexto, não é uma formalidade: é parte integrante da precificação do ativo.

Recuperação de ativos e o papel da negociação extrajudicial

O caminho judicial é, frequentemente, o menos eficiente para a recuperação de créditos estressados. Processos de execução no Brasil podem se estender por anos, com custos crescentes e incerteza sobre o resultado final. Por essa razão, gestoras especializadas têm investido cada vez mais em estruturas de negociação extrajudicial, que permitem acordos mais rápidos, com menor custo operacional e maior previsibilidade de fluxo.

Na concepção de Felipe Rassi, a capacidade de conduzir negociações complexas fora do ambiente judicial é um dos principais diferenciais competitivos no mercado de recuperação de ativos. Devedores corporativos, em particular, tendem a ser mais receptivos a acordos estruturados quando percebem que o credor tem disposição para construir soluções viáveis, e não apenas pressão para execução imediata.

O perfil do investidor que opera com eficiência nesse mercado

Atuar no mercado de créditos estressados exige uma combinação de competências que vai além do conhecimento financeiro convencional. A análise de risco precisa incorporar variáveis jurídicas, setoriais e macroeconômicas de forma integrada. O investidor que trata NPL como uma classe de ativo homogênea comete um erro metodológico grave: cada carteira tem seu próprio ecossistema de risco e recuperação.

Como observa Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, o mercado brasileiro ainda tem espaço relevante para a entrada de novos agentes qualificados, especialmente em nichos como crédito corporativo de médio porte, ativos com garantia fundiária e carteiras oriundas de setores em reestruturação acelerada. A sofisticação crescente do ambiente regulatório e a digitalização das operações de gestão tendem a ampliar ainda mais a eficiência do setor nos próximos anos.

Para investidores e gestoras que desejam aprofundar o entendimento sobre estruturação de operações com créditos não performados, o acompanhamento de análises técnicas especializadas é um passo indispensável para tomar decisões com maior precisão e menor exposição a riscos não mapeados.

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