Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista e profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, explica que a frase “eu sempre escolho o mesmo tipo de pessoa”, recorrente em atendimentos e rodas de conversa, resume uma crença que quase sempre soa como autoacusação, como se houvesse um defeito de julgamento que insiste em repetir o mesmo relacionamento abusivo em vínculos diferentes.
Essa ideia simplifica demais um fenômeno que a psicanálise estuda há décadas. Repetir padrões, inclusive de relacionamento tóxico, raramente tem a ver com falta de discernimento, e sim com algo bem mais antigo, formado muito antes de qualquer relacionamento adulto começar.
Compreender essa origem muda completamente a forma como se enxerga quem, mais de uma vez, se viu preso ao mesmo ciclo da violência, mesmo jurando que dessa vez seria diferente.
O mito de que a repetição é falta de discernimento
A explicação mais comum, e mais equivocada, é tratar a repetição como um problema de escolha malfeita. Sob essa lógica, bastaria “aprender a lição” ou “prestar mais atenção” para que o padrão parasse de se repetir. Se fosse assim simples, porém, o padrão já teria sido interrompido na primeira tentativa consciente de mudança.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que tratar esse fenômeno como falha de julgamento ignora uma parte essencial do funcionamento psíquico: grande parte das escolhas afetivas não acontece no nível racional, mas em camadas mais profundas, formadas na infância e reativadas sem que a pessoa perceba.
O que a psicanálise realmente explica sobre esse padrão?
A psicanálise chama esse fenômeno de compulsão à repetição, um mecanismo pelo qual situações emocionais não resolvidas no passado tendem a se reencenar no presente, ainda que com pessoas e contextos completamente distintos. O objetivo inconsciente, de forma paradoxal, costuma ser tentar resolver, dessa vez, o que ficou mal resolvido antes.
Taiza Tosatt Eleoterio revela que esse mecanismo não escolhe pessoas parecidas por acaso. Ele reconhece, em gestos, tons de voz ou formas de afeto, algo emocionalmente familiar, mesmo quando esse familiar é justamente o que causou sofrimento em algum momento da vida.
Por que a escolha do parceiro nunca é totalmente consciente?
Ninguém escolhe conscientemente reviver dor. O que acontece é mais sutil: certos comportamentos despertam uma sensação de familiaridade que é interpretada, de forma equivocada, como atração ou conexão verdadeira. Essa familiaridade nem sempre é positiva, mas é reconhecível, e o reconhecível costuma parecer mais seguro do que o desconhecido.
Taiza Tosatt Eleoterio considera que essa confusão entre familiaridade e segurança explica por que pessoas com histórico de dependência emocional em relações marcadas por controle podem sentir, diante de um parceiro emocionalmente disponível e estável, uma estranha falta de interesse. O que é saudável, nesses casos, pode soar sem graça justamente por não ativar padrões antigos.
Como o mesmo ciclo da violência aparece em relações diferentes?
O padrão se repete com pessoas diferentes porque o que se repete não é a pessoa em si, mas a dinâmica emocional que a relação reproduz. Uma mesma sensação de estar sempre tentando agradar, de nunca saber o que esperar ou de precisar provar o próprio valor pode aparecer com parceiros que, à primeira vista, não têm nada em comum entre si.
Taiza Tosatt Eleoterio aponta que essa repetição costuma se tornar visível apenas quando alguém, de fora ou em terapia, nomeia o padrão em voz alta. Sozinha, a pessoa dentro do ciclo raramente enxerga a semelhança entre um relacionamento abusivo e outro, porque cada novo vínculo chega revestido de justificativas próprias.
O que ajuda, de fato, a romper esse ciclo repetido?
Romper esse padrão não depende de força de vontade nem de simplesmente evitar um “tipo” de pessoa. Depende de identificar, com acompanhamento adequado, qual ferida antiga está sendo reencenada e o que ela precisa, finalmente, para ser elaborada de outra forma.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que esse processo costuma ser mais lento do que se espera, porque envolve desconstruir a ideia de que familiaridade é sinônimo de amor verdadeiro. Assim, quando essa distinção fica mais clara, a pessoa passa a reconhecer sinais de repetição logo no início de um vínculo, e não apenas depois que o padrão já se instalou por completo outra vez.

