Uma transformação que vem passando por baixo do radar de vários engenheiros é a mudança que vem ocorrendo nas estações de tratamento de esgoto do Brasil. Odair José Mannrich, como engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, alude que elas estão deixando de ser apenas infraestrutura de saneamento para se tornarem plataformas de geração de energia, recuperação de recursos e descarbonização urbana. Segundo ele, essa reconfiguração não é cosmética. Ela muda a lógica de negócios, a engenharia dos projetos e o próprio papel dessas instalações na economia das cidades.
A mudança tem raízes técnicas e regulatórias. O Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020 e ainda em processo de implementação, criou obrigações claras de universalização do acesso à coleta e ao tratamento de esgoto até 2033, o que representa um pipeline de obras avaliado em cerca de R$ 500 bilhões. Mas a grande virada conceitual não está nos números, e sim no que as concessionárias privadas, que assumiram progressivamente a gestão do setor, estão fazendo com as instalações existentes e com os novos projetos: reconfigurando estações de tratamento como biofábricas verdes.
O conceito é simples na superfície, mas exigente na execução: o lodo gerado no tratamento do esgoto, em vez de ser descartado como resíduo, é convertido em biogás. Esse biogás pode movimentar frotas veiculares, ser transformado em biometano para injeção na rede de gás natural ou alimentar sistemas de cogeração de energia elétrica e térmica para a própria estação. Uma instalação que antes consumia energia da rede passa a produzir energia e reduz consideravelmente suas emissões de gases.
A fronteira entre saneamento e energia está desaparecendo
Durante décadas, saneamento e energia foram tratados como setores completamente distintos, com suas próprias agências reguladoras, cadeias de financiamento e lógicas operacionais. Essa separação começa a se dissolver. Estações de tratamento que geram biometano precisam de contratos de venda de energia, conexão com distribuidoras de gás e certificação de origem da biomassa. Isso exige que as equipes de projeto transitem fluentemente entre os dois mundos, um desafio técnico e institucional que ainda está longe de ser resolvido na maioria dos municípios brasileiros.
São esses os desafios enfrentados por Odair José Mannrich, que opera exatamente nessa zona de convergência, onde a engenharia de saneamento encontra a engenharia energética. Projetos que antes eram desenhados por equipes especializadas em apenas uma das duas áreas precisam hoje de um olhar integrado, que considere, desde a fase de concepção, tanto os requisitos ambientais quanto as oportunidades de geração de receita com energia e insumos recuperados.

IoT, sensores e inteligência artificial no monitoramento de redes
A modernização das redes de saneamento não se limita às grandes estações de tratamento. Ela começa antes: em redes de coleta, tubulações e reservatórios. A implementação de sensores baseados em IoT ao longo das redes de distribuição de água e coleta de esgoto permite monitorar pressão, vazão e qualidade em tempo real. Sistemas de inteligência artificial analisam esses dados e identificam padrões que indicam vazamentos, entupimentos ou falhas iminentes antes que elas ocorram.
O impacto é direto na eficiência operacional, aponta Odair José Mannrich, com menos perdas de água tratada e menos interrupções no fornecimento, há menor necessidade de intervenções de emergência. Mas há também um impacto ambiental significativo. Redes com alto índice de perdas (uma realidade existente em boa parte do sistema de distribuição brasileiro) consomem energia elétrica extra para repor o volume perdido, além de comprometer rios e lençóis freáticos com esgoto não coletado. Digitalizar as redes é, portanto, tanto uma decisão econômica quanto ambiental.
O desafio dos municípios de menor porte
Enquanto as grandes metrópoles avançam na modernização das suas infraestruturas de saneamento, cidades menores enfrentam um quadro muito mais crítico. Odair José Mannrich ressalta que boa parte dos municípios brasileiros com menos de 50 mil habitantes ainda não possui sistemas adequados de coleta e tratamento de esgoto. Nessas localidades, a ideia de transformar uma estação de tratamento em biofábrica é, por ora, distante. O desafio imediato é garantir o básico: coleta adequada, tratamento mínimo e disposição segura dos efluentes.
Mas mesmo aqui há inovação. Tecnologias compactas de tratamento descentralizado, como reatores anaeróbios de fluxo ascendente, wetlands construídos e sistemas de lodos ativados em módulos, permitem levar soluções eficientes a contextos onde uma grande ETE seria inviável técnica e economicamente. Desenvolver e implementar essas soluções de menor escala é uma das fronteiras mais promissoras da engenharia ambiental contemporânea.
O que o Brasil pode aprender com quem já chegou lá?
Odair José Mannrich pontua a importância de nos espelharmos em países que já obtêm sucesso na questão da geração de energia. Países como a Dinamarca, Holanda e Singapura já operam estações de tratamento de esgoto que geram mais energia do que consomem. Não é ficção científica: é o resultado de décadas de investimento em tecnologia, operação eficiente e integração entre setores. O Brasil tem condições climáticas e volumétricas que, em tese, tornam o potencial de biogeração de energia ainda maior do que o observado em países de clima frio, onde a produção de biogás é menos eficiente.
O que falta não é potencial. É a combinação de regulação clara e capacidade técnica de execução. O fundador da Versa Engenharia Ambiental acredita que essa combinação está se aproximando de ocorrer, e que os próximos anos serão decisivos para definir quais empresas, municípios e regiões terão protagonismo nessa nova fase da infraestrutura ambiental brasileira. Quem entrar agora, com qualidade técnica e visão de longo prazo, colherá resultados que vão além do balanço financeiro: serão parte de uma mudança estrutural no país.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez

